CASO
DE FAMÍLIA
Evaí
Oliveira
Muitos dizem que dia
das mães são todos os dias, mas esse ditado não se adequa a todas as mulheres.
Ser mãe é mais do que parir, é cuidar dos seus filhos e, por isso penso que mãe
é a que cuida, já que qualquer uma pode engravidar sem pensar nas consequências
e jogar sua filha na mão de qualquer um.
Por que eu estou
falando isso? Vou aproveitar esse momento em que muitos filhos homenageiam suas
mães para dizer que a minha não merece nem uma pétala de rosa nem de qualquer outra
flor. Muitos vão me julgar ingrata, mal agradecida, mas eu sou realista e digo
na frente de todas vocês que se estivessem no meu lugar, estariam concordando
comigo.
Minha vida virou um
inferno quando meu pai saiu de casa e não entrou em contato mais. Quando eu
tinha doze anos, minha mãe arrumou um namorado e em pouco tempo ele veio morar
com a gente. Um dia, ela saiu e me deixou sozinha, eu estava no meu quarto
quando ele entrou e tentou me agarrar à força, tapando a minha boca e me
ameaçando se eu contasse à minha mãe. Ao perceber que ela estava chegando, o
maldito mandou eu me controlar pois seria melhor para mim que minha mãe não
soubesse.
Com medo, eu suporte os
abusos daquele miserável durante mais três anos, quando completei quinze anos,
decidi contar para a minha imaginando que ela me apoiaria, mas me enganei. Ela
disse que ela mentira minha e começou a brigar comigo dizendo que eu estava
querendo tomar o marido dela. Eu passei três longos anos sendo abusada pelo meu
padrasto em silêncio e quando conto, minha própria mãe não acredita em mim. Mas
não parou por aí.
Eu evitava ficar
sozinha com ele na minha própria casa, sempre chegava do colégio quase na hora
em que ela chegava do trabalho. Depois que ela começou a trabalhar o dia
inteiro, eu ficava a tarde inteira sozinha em casa e ele sempre chegava mais
cedo que ela, para se aproveitar de mim. Ele me pegava à força e ameaçava me
matar se eu contasse novamente para alguém, e os abusos passaram a acontecer
com mais frequência e ele sempre me ameaçando e me dizendo que eu nunca seria
feliz que ele não deixaria.
Confesso que já
levantei uma faca para ele, mas não tive coragem de seguir em frente, apesar de
que ele merecia. Eu não sabia mais o que fazer até que completei dezoito e
decidi dar um fim nessa situação, mas não o matei, se é o que estão pensando.
Eu resolvi contar aos meus melhores amigos, que me aconselharam a denunciar o bandido,
e armamos um flagra para ter provas, com a ajuda de um policial que acreditou
em mim.
Eu saí mais cedo da
escola e cheguei mais cedo que ele em casa, pois ele só chegava depois do
almoço. Meus amigos passaram na delegacia e preparam para a ação. Assim que meu
padrasto chegou, eu enviei a mensagem para eles se prepararem, e por incrível
que pareça, naquele dia eu tinha a certeza de que ia me libertar das correntes
daquele monstro. Pois bem, ele fez o mesmo de sempre, me segurou pelo braço e
me arrastou para o quarto, mas eu resisti e como ele era mais forte que eu, é
lógico que ganhou.
Dessa vez, eu gritei
pedindo ajuda, ele tapou a minha boca com a mão, deu um tapa na minha cara,
rasgou a minha blusa, me jogou na cama, tirou a camisa dele e deitou em de mim,
sempre me ameaçando. Eu contava os segundos para a polícia chegar e acabar com
tudo aquilo. Foi horrível!
Finalmente, o policial
chegou de fininho, entrou pela janela e seguiu os meus gritos desespero até o
quarto. Eu estava livre dele e podia falar para todo mundo tudo o que sofri
naqueles seis anos com meu padrasto. E minha mãe foi até a delegacia defender o
maridinho dela, dizendo que eu era oferecida e já desconfiava de que eu queria
tomar o marido dela e me xingou até de vagabunda.
Não era essa a reação
que eu esperava da minha mãe, pois mesmo com todo aquele espetáculo ela não
acreditou em mim. Acreditava cegamente nele e estava pouco se importando
comigo. Depois disso, eu fui morar com minha tia, que me acolheu e me apoiou,
ao contrário da minha mãe. Então, a partir daquele dia, aquela mulher medíocre
deixou de ser minha mãe e esse posto passou para a minha tia. Como existem
vários tipos de mães, a minha é um exemplo do que eu não quero ser.
Mesmo antes de concluir
o depoimento, várias mulheres ali presentes na comemoração já estavam
emocionadas com os relatos dessa situação que acontece com muitas de nossas
meninas, resultado de famílias desestruturadas em que certas mulheres que se
intitulam mães permitem que aconteçam com suas filhas. O pior é que, muitas
vezes, elas ficam a favor do marido ou namorado e usam desculpas ridículas ou
simplesmente insistem em não acreditar nas filhas, por sua vez, sofrem caladas
com medo de serem mortas caso denunciem, visto que nosso sistema judiciário é
lento e ineficiente.
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