MISTÉRIO DA MEIA-NOITE
Por Evaí Oliveira
evayoliveira@hotmail.com
PARTE 2
Enquanto jantavam, os
meninos comentaram sobre o recesso de Semana Santa. Com isso, Júli disse que
não sabia por que cada ano era em uma data diferente. Alana deu uma explicação
bem sucinta.
– Tia Júli, veja só, a
Semana Santa começa no Domingo de Ramos e acaba no domingo de Páscoa. A questão
se refere à data da Páscoa, que assim como outras celebrações da Igreja
Católica, é móvel. Já ouviu falar do imperador romano Constantino? Então, no
ano 325 depois de Cristo, Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia,
para tratar de algumas questões relacionadas ao cristianismo. Nesse concílio,
foi determinado que a Páscoa cristã seria celebrada no primeiro domingo depois
da Lua Cheia que ocorre após o equinócio de primavera no Hemisfério Norte, isso
entre 21 de março e 25 de abril. Aqui no Hemisfério Sul, nessa data ocorre o
equinócio que marca o início do outono, período em que as noites são mais
longas que os dias.
Carla estava sentada ao
lado de Júli. Levantou-se e pegou o calendário que estava pendurado na parede e
mostrou a ela.
– Vamos ver... aqui...
Neste ano de 2016, o outono se inicia no dia 21 de março. A primeira lua cheia depois
dessa data será no dia 23, uma quarta-feira. Certo? O próximo domingo é dia 27
de março: Domingo de Páscoa. Isso faz com que todas as comemorações
relacionadas também mudem de data.
– Como o Carnaval e a
Quaresma?
– Exatamente. Sabendo
da data da Páscoa, 27 de março, é só voltar 47 dias e teremos a terça-feira de
Carnaval no dia 9 de fevereiro. Obviamente, a Quaresma começa um dia depois, na
Quarta-feira de Cinzas, dia 10 de fevereiro e acaba um domingo antes da Páscoa,
no Domingo de Ramos, dia 20 de março.
– Hum... O carnaval de
2017 será em 28 de fevereiro. Então a Semana Santa será em abril?
– Sim. 47 dias depois.
A Páscoa será... deixe-me ver... acho que no dia 16 de abril. E a lua cheia
será entre os dias 10 e 15 de abril, possivelmente, mas precisaria de um
calendário com as fases da lua, para ter certeza. Não é mais ou menos isso,
Érique?
– Historiadoras,
geógrafas, matemáticas... Como você são sabidas. Só faltaram falar que a Páscoa
cristã, que celebra a ressurreição de Cristo, seguia, vamos dizer assim, a
Páscoa judaica, que celebra a libertação dos hebreus do Egito para a Terra
Prometida. Como o calendário judaico era baseado na Lua, no cristianismo, a
data passou a ser móvel também.
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Depois do jantar, Júli
os convidou para segui-la à varanda do andar superior, levando, com a ajuda de
Natália, uma garrafa de café com leite e um pote de biscoitos de sal.
Na varanda, há uma mesa
de centro de madeira, um banco antigo e três cadeiras de plástico nos quais
todos se acomodaram. A leve brisa da noite tornou o momento mais agradável e
fresco. Nessa noite de sexta-feira, a enorme lua cheia iluminava a varanda e
uma parte do quintal em que as sombras das árvores não conseguiam cobrir.
– Respondendo à
pergunta de hoje de tarde sobre o nome do sítio: Lua Cheia. Esse sítio foi
comprado em um período de lua cheia. Em algumas estações do ano, como acontece
no outono, a lua cheia aparece bem grande, como se fosse só para o sítio, que
fica iluminado como se fosse dia.
Já passava das 10 horas
da noite. Da varanda, era possível ver uma casinha atrás de algumas árvores
fora da cerca do sobrado, há uns quatrocentos metros de distância.
Curioso, Érique
perguntou e a resposta veio de Júli.
– Vejam ali! Quem mora
naquela casa?
– É a casa do empregado
do sítio. Ele mora aqui há um bom tempo, desde a época dos antigos donos.
– O que ele faz?
– Bem... Colhe as
verduras, os legumes e as frutas para entregar aos compradores, verifica o sistema
de irrigação da horta, separa os ovos das galinhas, para vender, as alimenta e
tira leite das vacas. Mas os donos anteriores venderam quase todas as galinhas
e só restou uma vaca leiteira. Ele é muito agradável.
– Só acho que há alguma
coisa muito estranha acontecendo aqui. Aqueles dois não venderiam esse paraíso
se não tivesse medo de alguma coisa. Ou de alguém.
– Não há do que ter
medo, Natália. Provavelmente, tentaram roubar o sítio e eles decidiram se mudar
para a cidade. Foi uma pena eles terem se mudado daqui.
Os visitantes se
serviram e ficaram observando a conversa.
– Meninos, não deem
ouvidos. Ela é tem uma imaginação muito fértil. Agora cismou que há um
lobisomem rondando o sítio...
Érique interrompeu a
conversa indicando que não acreditava naquele ser fantástico.
– O lobisomem não passa
de uma lenda que veio da Europa, no século XVI com os portugueses que
colonizaram o Brasil.
E foi apoiado por Alana
e Carla.
– Vejam só! Por que os
lobisomens só aparecem na quaresma? Eu mesma respondo: Porque é uma lenda
apoiada pela Igreja.
– Exatamente! Só não
posso afirmar que a Igreja criou a lenda. Mas a nossa querida instituição
religiosa sempre educou, entre aspas, as pessoas através do medo.
– E os próprios padres
diziam que os pais tinham que batizar seus filhos, porque os lobisomens
gostavam de atacar bebês pagãos.
– Pelo que sei, essa
lenda pode ter sido originada na Europa, como Érique disse, pois a mitologia da
Grécia Antiga faz referência ao licantropo, um ser lendário. De acordo com os
mitos, um homem pode se transformar em lobo em noites de lua cheia e só volta
ao normal pouco antes de o dia amanhecer.
Lembrando-se das aulas
de História, Érique mencionou vagamente o mito grego do lobisomem.
– Se não me engano, o
rei da Arcádia ofereceu um sacrifício a Zeus, que o transformou em lobo.
Júli concorda em partes
com o que ouve, seguida por Érique e Carla.
– As pessoas mais
velhas afirmam que existe e algumas, até que já viram ou foram atacadas. Certo
que é uma lenda, mas alguma coisa pode ter feito essas pessoas acreditarem na
existência do tal lobisomem, como um possível ladrão, para assustar. Eu mesma
não acredito.
– É cientificamente
impossível um homem sofrer uma transformação dessa forma.
– Isso só acontece na
ficção e na imaginação das pessoas supersticiosas.
– O empregado disse que
já viu um lobisomem aqui. E me confessou que esse foi o motivo da venda do
sítio. Ele também me disse que na quaresma passada, um dia, a horta amanheceu
toda pisada, várias galinhas espedaçadas, marcas de garras na porta do fundo e
o que o bicho entortou o suporte do painel de energia solar.
Natália entrou na
conversa relatando alguns fatos recentes.
– Não foi só na quaresma
passada. Como explicar, mãe, o barulho no galinheiro anteontem de madrugada?
– Pode ter sido alguma
raposa.
– E aqueles pelos nos
fios de arame na cerca lá perto do riacho?
– Pode ter sido a mesma
ou outra raposa tentando atravessar a cerca para atacar as galinhas.
– Não me convenceu.
Nunca vi raposa de pelo escuro.
Ouvindo aquelas
suposições, Alana ficou tentando não acreditar nas insinuações feitas por
Natália.
– Você quer dizer,
Natália, que há um lobisomem rondando a casa?
– Alana, não sei mais
em que acreditar. Mas alguma muito estranha está acontecendo aqui.
No decorrer da
conversa, Érique falou que a lenda se refere à metamorfose em lobo em noites de
lua cheia, não necessariamente na quaresma. Alana e Carla comentaram sobre as
versões da lenda seguidas por Natália e Júli.
– Isso mesmo. Uma
versão diz que um homem foi mordido por um lobo em uma noite de lua cheia. E
depois disso, o homem desenvolveu a capacidade de se metamorfosear em lobo, com
traços humanos, em noites de lua cheia.
– Outra diz que se uma
mulher tiver seis filhas, engravidar outra vez e o sétimo filho for menino,
esse se transformará em lobisomem.
– E dizem que se uma
pessoa foi mordida por um lobisomem, passa a se transformar também.
– Minha avó dizia que o
oitavo filho de uma sequência de sete filhas se teria a sina de se transformar
em lobisomem à meia-noite de sexta-feira em uma encruzilhada e tinha que voltar
ao mesmo lugar para se destransformar. As transformações começam a ocorrer a
partir dos 13 anos de idade e tinha que percorrer sete cemitérios antes de
voltar ao normal. E só seria possível matá-lo acertando-o com uma bala de
prata.
O relógio marcava quase
23:30. Em meio a tantas histórias de lobisomens, não sobrou nem uma gota de
café e o pote de biscoitos estava vazio. Todos foram para seus dormitórios, que
ficam no andar superior da casa. Júli foi para o seu quarto, Alana e Carla
seguiram para o quarto de Natália e Érique foi para outro quarto, ao lado do
das meninas, dormir sozinho.
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