domingo, 11 de março de 2018

Mistério da Meia-Noite (Parte 2)

MISTÉRIO DA MEIA-NOITE

Por Evaí Oliveira
evayoliveira@hotmail.com

PARTE 2

Enquanto jantavam, os meninos comentaram sobre o recesso de Semana Santa. Com isso, Júli disse que não sabia por que cada ano era em uma data diferente. Alana deu uma explicação bem sucinta.
– Tia Júli, veja só, a Semana Santa começa no Domingo de Ramos e acaba no domingo de Páscoa. A questão se refere à data da Páscoa, que assim como outras celebrações da Igreja Católica, é móvel. Já ouviu falar do imperador romano Constantino? Então, no ano 325 depois de Cristo, Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia, para tratar de algumas questões relacionadas ao cristianismo. Nesse concílio, foi determinado que a Páscoa cristã seria celebrada no primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre após o equinócio de primavera no Hemisfério Norte, isso entre 21 de março e 25 de abril. Aqui no Hemisfério Sul, nessa data ocorre o equinócio que marca o início do outono, período em que as noites são mais longas que os dias.
Carla estava sentada ao lado de Júli. Levantou-se e pegou o calendário que estava pendurado na parede e mostrou a ela.
– Vamos ver... aqui... Neste ano de 2016, o outono se inicia no dia 21 de março. A primeira lua cheia depois dessa data será no dia 23, uma quarta-feira. Certo? O próximo domingo é dia 27 de março: Domingo de Páscoa. Isso faz com que todas as comemorações relacionadas também mudem de data.
– Como o Carnaval e a Quaresma?
– Exatamente. Sabendo da data da Páscoa, 27 de março, é só voltar 47 dias e teremos a terça-feira de Carnaval no dia 9 de fevereiro. Obviamente, a Quaresma começa um dia depois, na Quarta-feira de Cinzas, dia 10 de fevereiro e acaba um domingo antes da Páscoa, no Domingo de Ramos, dia 20 de março.
– Hum... O carnaval de 2017 será em 28 de fevereiro. Então a Semana Santa será em abril?
– Sim. 47 dias depois. A Páscoa será... deixe-me ver... acho que no dia 16 de abril. E a lua cheia será entre os dias 10 e 15 de abril, possivelmente, mas precisaria de um calendário com as fases da lua, para ter certeza. Não é mais ou menos isso, Érique?
– Historiadoras, geógrafas, matemáticas... Como você são sabidas. Só faltaram falar que a Páscoa cristã, que celebra a ressurreição de Cristo, seguia, vamos dizer assim, a Páscoa judaica, que celebra a libertação dos hebreus do Egito para a Terra Prometida. Como o calendário judaico era baseado na Lua, no cristianismo, a data passou a ser móvel também.

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Depois do jantar, Júli os convidou para segui-la à varanda do andar superior, levando, com a ajuda de Natália, uma garrafa de café com leite e um pote de biscoitos de sal.
Na varanda, há uma mesa de centro de madeira, um banco antigo e três cadeiras de plástico nos quais todos se acomodaram. A leve brisa da noite tornou o momento mais agradável e fresco. Nessa noite de sexta-feira, a enorme lua cheia iluminava a varanda e uma parte do quintal em que as sombras das árvores não conseguiam cobrir.
– Respondendo à pergunta de hoje de tarde sobre o nome do sítio: Lua Cheia. Esse sítio foi comprado em um período de lua cheia. Em algumas estações do ano, como acontece no outono, a lua cheia aparece bem grande, como se fosse só para o sítio, que fica iluminado como se fosse dia.
Já passava das 10 horas da noite. Da varanda, era possível ver uma casinha atrás de algumas árvores fora da cerca do sobrado, há uns quatrocentos metros de distância.
Curioso, Érique perguntou e a resposta veio de Júli.
– Vejam ali! Quem mora naquela casa?
– É a casa do empregado do sítio. Ele mora aqui há um bom tempo, desde a época dos antigos donos.
– O que ele faz?
– Bem... Colhe as verduras, os legumes e as frutas para entregar aos compradores, verifica o sistema de irrigação da horta, separa os ovos das galinhas, para vender, as alimenta e tira leite das vacas. Mas os donos anteriores venderam quase todas as galinhas e só restou uma vaca leiteira. Ele é muito agradável.
– Só acho que há alguma coisa muito estranha acontecendo aqui. Aqueles dois não venderiam esse paraíso se não tivesse medo de alguma coisa. Ou de alguém.
– Não há do que ter medo, Natália. Provavelmente, tentaram roubar o sítio e eles decidiram se mudar para a cidade. Foi uma pena eles terem se mudado daqui.
Os visitantes se serviram e ficaram observando a conversa.
– Meninos, não deem ouvidos. Ela é tem uma imaginação muito fértil. Agora cismou que há um lobisomem rondando o sítio...
Érique interrompeu a conversa indicando que não acreditava naquele ser fantástico.
– O lobisomem não passa de uma lenda que veio da Europa, no século XVI com os portugueses que colonizaram o Brasil.
E foi apoiado por Alana e Carla.
– Vejam só! Por que os lobisomens só aparecem na quaresma? Eu mesma respondo: Porque é uma lenda apoiada pela Igreja.
– Exatamente! Só não posso afirmar que a Igreja criou a lenda. Mas a nossa querida instituição religiosa sempre educou, entre aspas, as pessoas através do medo.
– E os próprios padres diziam que os pais tinham que batizar seus filhos, porque os lobisomens gostavam de atacar bebês pagãos.
– Pelo que sei, essa lenda pode ter sido originada na Europa, como Érique disse, pois a mitologia da Grécia Antiga faz referência ao licantropo, um ser lendário. De acordo com os mitos, um homem pode se transformar em lobo em noites de lua cheia e só volta ao normal pouco antes de o dia amanhecer.
Lembrando-se das aulas de História, Érique mencionou vagamente o mito grego do lobisomem.
– Se não me engano, o rei da Arcádia ofereceu um sacrifício a Zeus, que o transformou em lobo.
Júli concorda em partes com o que ouve, seguida por Érique e Carla.
– As pessoas mais velhas afirmam que existe e algumas, até que já viram ou foram atacadas. Certo que é uma lenda, mas alguma coisa pode ter feito essas pessoas acreditarem na existência do tal lobisomem, como um possível ladrão, para assustar. Eu mesma não acredito.
– É cientificamente impossível um homem sofrer uma transformação dessa forma.
– Isso só acontece na ficção e na imaginação das pessoas supersticiosas.
– O empregado disse que já viu um lobisomem aqui. E me confessou que esse foi o motivo da venda do sítio. Ele também me disse que na quaresma passada, um dia, a horta amanheceu toda pisada, várias galinhas espedaçadas, marcas de garras na porta do fundo e o que o bicho entortou o suporte do painel de energia solar.
Natália entrou na conversa relatando alguns fatos recentes.
– Não foi só na quaresma passada. Como explicar, mãe, o barulho no galinheiro anteontem de madrugada?
– Pode ter sido alguma raposa.
– E aqueles pelos nos fios de arame na cerca lá perto do riacho?
– Pode ter sido a mesma ou outra raposa tentando atravessar a cerca para atacar as galinhas.
– Não me convenceu. Nunca vi raposa de pelo escuro.
Ouvindo aquelas suposições, Alana ficou tentando não acreditar nas insinuações feitas por Natália.
– Você quer dizer, Natália, que há um lobisomem rondando a casa?
– Alana, não sei mais em que acreditar. Mas alguma muito estranha está acontecendo aqui.
No decorrer da conversa, Érique falou que a lenda se refere à metamorfose em lobo em noites de lua cheia, não necessariamente na quaresma. Alana e Carla comentaram sobre as versões da lenda seguidas por Natália e Júli.
– Isso mesmo. Uma versão diz que um homem foi mordido por um lobo em uma noite de lua cheia. E depois disso, o homem desenvolveu a capacidade de se metamorfosear em lobo, com traços humanos, em noites de lua cheia.
– Outra diz que se uma mulher tiver seis filhas, engravidar outra vez e o sétimo filho for menino, esse se transformará em lobisomem.
– E dizem que se uma pessoa foi mordida por um lobisomem, passa a se transformar também.
– Minha avó dizia que o oitavo filho de uma sequência de sete filhas se teria a sina de se transformar em lobisomem à meia-noite de sexta-feira em uma encruzilhada e tinha que voltar ao mesmo lugar para se destransformar. As transformações começam a ocorrer a partir dos 13 anos de idade e tinha que percorrer sete cemitérios antes de voltar ao normal. E só seria possível matá-lo acertando-o com uma bala de prata.
O relógio marcava quase 23:30. Em meio a tantas histórias de lobisomens, não sobrou nem uma gota de café e o pote de biscoitos estava vazio. Todos foram para seus dormitórios, que ficam no andar superior da casa. Júli foi para o seu quarto, Alana e Carla seguiram para o quarto de Natália e Érique foi para outro quarto, ao lado do das meninas, dormir sozinho.

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