MISTÉRIO DA MEIA-NOITE
Por Evaí Oliveira
evayoliveira@hotmail.com
PARTE 3
Por volta da meia-noite, Alana disse ter ouvido
pisadas no lado da casa. Carla e Natália afirmaram não terem ouvido nada. Elas
se ativeram ao silêncio da noite e também tiveram a impressão de ouvirem passos
pesados indo para os fundos da casa. As três se levantaram, com a luz apagada e
foram, nas pontas dos pés, para a janela de guilhotina que estava aberta para
entrar o vento suave da noite.
Os galhos de algumas árvores dos lados da casa
estavam na altura do andar superior. Por causa disso e das sombras criadas
pelas árvores maiores, não era possível ver o que passava por baixo. Só se
poderia ver se fosse dia. Não se ouviam mais as pisadas. Mesmo sem ver nada,
elas sussurraram alguma coisa. Em seguida, ouviram o barulho da porta do
galinheiro sendo arrombada e as galinhas começaram a gritar. Alana e Natália
ficaram pasmadas, mas Carla ainda continuou cética.
O quarto em que Érique estava tinha janelas
viradas para os fundos, onde fica o galinheiro. Quando ouviu os passos pesados,
também, com as luzes apagadas, foi para a janela. Mesmo com as sombras das
árvores, viu um vulto preto derrubando a porta e entrando no galinheiro e ouviu
o barulho feito pelas galinhas.
Era algo parecido com um animal andando nas
patas traseiras e aparentemente peludo. A silhueta era um pouco mais alta e
mais forte que a de um homem normal. Enquanto tentava não acreditar no que
poderia estar vendo, um possível lobisomem, olhou para a porta do quarto e viu
a câmera digital em cima da mochila. Correu para pegá-la e voltou para a
janela. Ligou e começou a tirar fotos com flash
com o intuito de atrair a atenção do ser.
Vendo os reflexos dos flashes, as meninas foram para o quarto de Érique a passos rápidos,
mas sem fazer barulho, pois Júli estava dormindo e elas não queriam acordá-la.
Poucos segundos depois, o vulto saiu correndo pela única porta do galinheiro,
seguindo para os lados do riacho. As meninas afirmaram terem visto o focinho e
as garras, mas Érique estava acompanhando pela tela da câmera e só conseguiu
ver um bicho peludo. A claridade da câmera não alcançou o monstro e em todas as
fotos só se podia ver um vulto mais escuro meio distorcido.
Depois desse fato, as meninas voltaram ao
quarto, em silêncio, e todos foram dormir. Natália e Alana estavam meio
assustadas, mas Érique e Carla continuavam sem querer acreditar no que seus
olhos viram. Nesse momento, o relógio marcava 00:40.
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No dia seguinte, sábado, desceram cedo para a
sala de estar, antes das 7h. Júli se levantou para preparar o café da manhã e
ao se aproximar da escada ouviu uma miniconfusão na sala. Ela desceu
perguntando o motivo da gritaria. Os meninos responderam ao mesmo. Já ao lado
do sofá, Júli pediu silêncio e perguntou de novo. Mais uma vez, os quatro
falaram ao mesmo tempo.
– Chega!
Não quero saber mais.
– Espere, mãe! Vamos falar um de cada vez.
– Tudo bem! Pode começar, Érique?
– Claro! Ontem, à noite, nós vimos um
lobisomem...
– Foi mesmo, tia Júli. As orelhas eram enormes.
– Eu fiquei arrepiada!
– Vocês são muito criativos! Já pensaram em
escrever contos de seres fantásticos?
– Veja esta foto que consegui tirar com a minha
câmera!
– Deixe-me ver... Só estou vendo uma parede e
algumas árvores.
– Olhe aqui... Esse vulto preto...
– Ah! A sombra de uma árvore.
– Mãe, ele entrou no galinheiro...
– Você não ouviu a gritaria das galinhas?
– Não ouvi nada. Tenho o sono pesado. Mas mesmo
assim...
– Vamos lá fora, tia, para você ver com seus
próprios olhos.
– O lobisomem que vocês viram está lá fora?
– Não. Mas os estragos sim.
– Eu vou só para provar que vocês estão
tentando me pregar uma peça.
– Então, vamos!
Quando saíram pelo fundo, viram a porta do
galinheiro encostada na parede pelo lado de fora. Dentro, havia penas e pedaços
de algumas galinhas espalhados para todos os lados. Érique estava tirando fotos
com sua câmera e, enquanto Júli e as meninas olhavam o que sobrou do
galinheiro, chegou o empregado.
– O que aconteceu aqui?
– Agora acredita em nós?
– Deve ter sido alguma raposa...
– Uma raposa que consegue derrubar uma porta de
madeira?
– O que nós vimos tinha quase dois metros de
altura. Não parecia nada com uma raposa. Sem falar que saiu correndo de dois
pés e não de quatro patas... Acho que alguém está fazendo isso, pois esse ser
fantástico não existe.
– Dona Júli, as crianças podem estar falando a
verdade. Quando ouvi as galinhas gritarem, saí para ver o que era. Cheguei
perto da cerca e vi o lobisomem derrubando a porta do galinheiro. Depois o
bicho saiu correndo e uivou lá embaixo. E não era uma pessoa, era um lobisomem
mesmo! Daí voltei correndo para casa e
me tranquei. Quando amanheceu, vim aqui, a porta estava meio solta. Tirei e
coloquei encostada na parede. A senhora viu a situação do galinheiro?
– Adolescentes! Somos adolescentes e não
crianças.
– Que seja... Pode ter sido algum ladrão que
derrubou a porta e depois entrou alguma raposa e atacou as galinhas...
– Nós vimos tudo pela janela. Não apareceu
raposa nenhuma.
– Enquanto vocês ficam aí falando que viram uma
pessoa fantasiada ou um ser fantástico, eu vou preparar o café da manhã.
Depois que Júli foi para a cozinha, o empregado
disse aos meninos que há alguns dias ouviu o bicho uivando perto do riacho e
desde que ele veio trabalhar no sítio, todos os anos, na quaresma, o lobisomem
aparece nos arredores da casa. Disse também que no ano passado, o monstro
tentou invadir a casa e deixou as marcas das garras na porta dos fundos. Esse
foi o principal motivo pelo qual os antigos donos venderam a propriedade.
– Bem... A porta da cozinha está fechada e não
estou vendo marca nenhuma.
– Menino, na semana seguinte ao ataque me
mandaram comprar e colocar outra porta. A arranhada está no depósito, eu mesmo
a guardei lá. Agora eu tenho que ir até a cidade.
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