domingo, 18 de março de 2018

Mistério da Meia-Noite (Parte 3)

MISTÉRIO DA MEIA-NOITE

Por Evaí Oliveira
evayoliveira@hotmail.com

PARTE 3

Por volta da meia-noite, Alana disse ter ouvido pisadas no lado da casa. Carla e Natália afirmaram não terem ouvido nada. Elas se ativeram ao silêncio da noite e também tiveram a impressão de ouvirem passos pesados indo para os fundos da casa. As três se levantaram, com a luz apagada e foram, nas pontas dos pés, para a janela de guilhotina que estava aberta para entrar o vento suave da noite.
Os galhos de algumas árvores dos lados da casa estavam na altura do andar superior. Por causa disso e das sombras criadas pelas árvores maiores, não era possível ver o que passava por baixo. Só se poderia ver se fosse dia. Não se ouviam mais as pisadas. Mesmo sem ver nada, elas sussurraram alguma coisa. Em seguida, ouviram o barulho da porta do galinheiro sendo arrombada e as galinhas começaram a gritar. Alana e Natália ficaram pasmadas, mas Carla ainda continuou cética.
O quarto em que Érique estava tinha janelas viradas para os fundos, onde fica o galinheiro. Quando ouviu os passos pesados, também, com as luzes apagadas, foi para a janela. Mesmo com as sombras das árvores, viu um vulto preto derrubando a porta e entrando no galinheiro e ouviu o barulho feito pelas galinhas.
Era algo parecido com um animal andando nas patas traseiras e aparentemente peludo. A silhueta era um pouco mais alta e mais forte que a de um homem normal. Enquanto tentava não acreditar no que poderia estar vendo, um possível lobisomem, olhou para a porta do quarto e viu a câmera digital em cima da mochila. Correu para pegá-la e voltou para a janela. Ligou e começou a tirar fotos com flash com o intuito de atrair a atenção do ser.
Vendo os reflexos dos flashes, as meninas foram para o quarto de Érique a passos rápidos, mas sem fazer barulho, pois Júli estava dormindo e elas não queriam acordá-la. Poucos segundos depois, o vulto saiu correndo pela única porta do galinheiro, seguindo para os lados do riacho. As meninas afirmaram terem visto o focinho e as garras, mas Érique estava acompanhando pela tela da câmera e só conseguiu ver um bicho peludo. A claridade da câmera não alcançou o monstro e em todas as fotos só se podia ver um vulto mais escuro meio distorcido.
Depois desse fato, as meninas voltaram ao quarto, em silêncio, e todos foram dormir. Natália e Alana estavam meio assustadas, mas Érique e Carla continuavam sem querer acreditar no que seus olhos viram. Nesse momento, o relógio marcava 00:40.

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No dia seguinte, sábado, desceram cedo para a sala de estar, antes das 7h. Júli se levantou para preparar o café da manhã e ao se aproximar da escada ouviu uma miniconfusão na sala. Ela desceu perguntando o motivo da gritaria. Os meninos responderam ao mesmo. Já ao lado do sofá, Júli pediu silêncio e perguntou de novo. Mais uma vez, os quatro falaram ao mesmo tempo.
 – Chega! Não quero saber mais.
– Espere, mãe! Vamos falar um de cada vez.
– Tudo bem! Pode começar, Érique?
– Claro! Ontem, à noite, nós vimos um lobisomem...
– Foi mesmo, tia Júli. As orelhas eram enormes.
– Eu fiquei arrepiada!
– Vocês são muito criativos! Já pensaram em escrever contos de seres fantásticos?
– Veja esta foto que consegui tirar com a minha câmera!
– Deixe-me ver... Só estou vendo uma parede e algumas árvores.
– Olhe aqui... Esse vulto preto...
– Ah! A sombra de uma árvore.
– Mãe, ele entrou no galinheiro...
– Você não ouviu a gritaria das galinhas?
– Não ouvi nada. Tenho o sono pesado. Mas mesmo assim...
– Vamos lá fora, tia, para você ver com seus próprios olhos.
– O lobisomem que vocês viram está lá fora?
– Não. Mas os estragos sim.
– Eu vou só para provar que vocês estão tentando me pregar uma peça.
– Então, vamos!
Quando saíram pelo fundo, viram a porta do galinheiro encostada na parede pelo lado de fora. Dentro, havia penas e pedaços de algumas galinhas espalhados para todos os lados. Érique estava tirando fotos com sua câmera e, enquanto Júli e as meninas olhavam o que sobrou do galinheiro, chegou o empregado.
– O que aconteceu aqui?
– Agora acredita em nós?
– Deve ter sido alguma raposa...
– Uma raposa que consegue derrubar uma porta de madeira?
– O que nós vimos tinha quase dois metros de altura. Não parecia nada com uma raposa. Sem falar que saiu correndo de dois pés e não de quatro patas... Acho que alguém está fazendo isso, pois esse ser fantástico não existe.
– Dona Júli, as crianças podem estar falando a verdade. Quando ouvi as galinhas gritarem, saí para ver o que era. Cheguei perto da cerca e vi o lobisomem derrubando a porta do galinheiro. Depois o bicho saiu correndo e uivou lá embaixo. E não era uma pessoa, era um lobisomem mesmo!  Daí voltei correndo para casa e me tranquei. Quando amanheceu, vim aqui, a porta estava meio solta. Tirei e coloquei encostada na parede. A senhora viu a situação do galinheiro?
– Adolescentes! Somos adolescentes e não crianças.
– Que seja... Pode ter sido algum ladrão que derrubou a porta e depois entrou alguma raposa e atacou as galinhas...
– Nós vimos tudo pela janela. Não apareceu raposa nenhuma.
– Enquanto vocês ficam aí falando que viram uma pessoa fantasiada ou um ser fantástico, eu vou preparar o café da manhã.
Depois que Júli foi para a cozinha, o empregado disse aos meninos que há alguns dias ouviu o bicho uivando perto do riacho e desde que ele veio trabalhar no sítio, todos os anos, na quaresma, o lobisomem aparece nos arredores da casa. Disse também que no ano passado, o monstro tentou invadir a casa e deixou as marcas das garras na porta dos fundos. Esse foi o principal motivo pelo qual os antigos donos venderam a propriedade.
– Bem... A porta da cozinha está fechada e não estou vendo marca nenhuma.
– Menino, na semana seguinte ao ataque me mandaram comprar e colocar outra porta. A arranhada está no depósito, eu mesmo a guardei lá. Agora eu tenho que ir até a cidade.

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